O novo clima nas operações bancárias

Novembro/Dezembro 2017

Terminais de autoatendimento enviados para a recicladora Sinctronics são reaproveitados e materiais, como plástico, voltam para a cadeia de produção



As expressões “estar no azul” ou “no vermelho”, que sempre estiveram entre as mais usadas no vocabulário das instituições financeiras, ganharam outra companhia colorida: agora é o “verde” que entra para valer em cena e marca ações do dia a dia, serviços, produtos e inovações no setor bancário. Com iniciativas que vão da abertura de contas digitais à substituição de terminais de autoatendimento e incremento na reciclagem de máquinas e equipamentos, o setor financeiro adapta-se à legislação ambiental e avança no uso de tecnologias para se tornar cada vez mais sustentável. E “verde”.

O Sinctronics, empresa de Sorocaba que atua como recicladora de eletroeletrônicos, já recebe uma média de 100 caixas eletrônicos e de 40 mil a 50 mil máquinas de cartões (POS) por mês desde que começou a atender neste ano empresas que integram a indústria de serviços financeiros. A recicladora também recebe cerca de 100 quilos de resíduos por mês de outras unidades do grupo americano Flex, a quem está ligada. Desde maio, a Sinctronics notou aumento de 35% a 40% nos descartes de materiais do setor financeiro. “A renovação da tecnologia, com a troca por equipamentos mais eficientes e inteligentes, e a busca por segurança na hora de descartar produtos, com a garantia de proteção das marcas, contribuíram para que recebêssemos mais resíduos do segmento bancário”, diz Mileide Cubo, gerente de operações da Sinctronics.

A empresa mantém em Sorocaba (SP), junto à fábrica, um centro de inovação em que desenvolveu soluções para que empresas clientes acompanhem de forma online todo o processo de descarte do resíduo, desde a coleta até a destruição final com a emissão de um certificado. O reaproveitamento dos materiais é quase total: 95% deles são reintroduzidos na cadeia, 5% são enviados para processos de coprocessamento e zero vai para o aterro. Mesmo com o crescimento total de 30% no volume total de reciclagem na Sinctronics, principalmente em itens como cartuchos, suprimentos e caixas eletrônicos de bancos, a empresa ainda usa apenas um terço de sua capacidade.

Os investimentos em pesquisa e desenvolvimento e os avanços nos processos de reciclagem ainda não foram suficientes para que o Brasil adquirisse tecnologia para reaproveitar placas eletrônicas, exportadas para Canadá, Bélgica, Alemanha, Japão e Cingapura, capazes de recuperar os metais preciosos nelas contidos. O que é feito na empresa do interior paulista é a trituração e a separação de metais ferrosos, cobre e alumínio, explica a gerente da recicladora. “De dez passos necessários para a reciclagem total das placas, hoje são feitos três. Em breve, devemos chegar a sete.” Os circuitos são enviados ao Canadá, que tem a tecnologia final para 100% de reaproveitamento.

Entre os clientes da Sinctronics estão Cielo, OKI (fabricante de caixas eletrônicos, que também reutiliza parte de seus resíduos em Jundiaí, onde mantém um centro de reciclagem) e HP (produz impressoras e cartuchos). Há seis meses, outras empresas do setor financeiro passaram a procurar a recicladora. No Bradesco, a reciclagem de ATMS (terminais de autoatendimento) atingiu 27.522 máquinas de 2010 a 2017 – mais de 300 por mês.

O Banco do Brasil faz a modernização de 5 mil a 6 mil terminais por ano, segundo a vida útil do equipamento (dez anos, em média). Desde 2007, o banco tem parcerias com entidades e associações de catadores em empreendimentos solidários que geram renda com a reciclagem de materiais. O Santander destinou para a reciclagem 546 ATMs, quase 8 mil CPUs de computadores e 15 mil telefones e acessórios no ano passado. Através do programa Descarte Legal, a Caixa doa seus resíduos eletroeletrônicos a cooperativas de catadores de materiais recicláveis capacitadas por meio de acordo com o Instituto GEA - Ética e Meio Ambiente. Em 2016, 10.728 resíduos e 121 ATMs geraram R$ 117 mil em vendas aos cooperados de 11 municípios.

Parte dos bancos também já faz leasing operacional com o sistematrade-in para adquirir notebooks, terminais, impressoras. Assim, as instituições fazem a locação do produto e o devolvem no fim do contrato ou o adquirem por preço menor, reduzindo custos de propriedade. O fabricante é responsável pelo descarte final de forma ambientalmente adequada, como prevê a legislação. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, regulamentada pela lei 12.305, de 2010, mais conhecida como a lei da logística reversa, prevê que a responsabilidade pela destinação final dos resíduos é compartilhada por todos em todas as etapas da cadeia. Isso inclui não só quem fabrica, mas quem distribui e até quem consome.

Mesmo antes da lei, as instituições já desenvolviam programas para os resíduos eletrônicos que geram. “Desde 2008, realizamos a destinação ambientalmente adequada dos resíduos de equipamentos eletroeletrônicos. Com a lei, passamos a discutir com os fornecedores sobre logística e manufatura reversa”, diz Denise Hills, superintendente de Sustentabilidade e Negócios Inclusivos do Itaú Unibanco. “Hoje, já estão em vigor alguns contratos em que compartilhamos a responsabilidade das máquinas com os fabricantes e os fornecedores.” A OKI é uma das fabricantes com parcerias no setor. “Os bancos têm incorporado a preocupação com a destinação final de seus resíduos eletrônicos e se interessam em conhecer os processos de logística reversa disponíveis”, afirma Romilson Bastos, diretor de Comunicação e Sustentabilidade da OKI Brasil. De janeiro a junho deste ano, a empresa destinou ao reaproveitamento o equivalente a mais de 2 mil ATMs.

Parte dos bancos também já faz leasing operacional com o sistematrade-in para adquirir notebooks, terminais, impressoras. Assim, as instituições fazem a locação do produto e o devolvem no fim do contrato ou o adquirem por preço menor, reduzindo custos de propriedade. O fabricante é responsável pelo descarte final de forma ambientalmente adequada, como prevê a legislação. A Política Nacional de Resíduos Sólidos, regulamentada pela lei 12.305, de 2010, mais conhecida como a lei da logística reversa, prevê que a responsabilidade pela destinação final dos resíduos é compartilhada por todos em todas as etapas da cadeia. Isso inclui não só quem fabrica, mas quem distribui e até quem consome.

Com a evolução das maquininhas de pagamento por meio de cartões (uso de tecnologias que permitem a troca de informações por transmissão sem cabo e por aproximação, por exemplo), o segmento das adquirentes também movimenta a reciclagem de resíduos eletrônicos. “As soluções de pagamento baseadas em tecnologias virtuais e alternativas sem utilização de papel contribuem significativamente para a redução de impactos relacionados às mudanças climáticas”, diz Gleice Donini, gerente de Sustentabilidade da Cielo. A executiva diz que a logística reversa é um processo estruturado há anos na companhia. No ano passado, foram 277 mil quilos de cabos e fontes e 316 mil de máquinas POS e material de marketing encaminhados para reciclagem ou coprocessamento.

“A área financeira certamente é uma das que mais recicla”, diz Paloma Cavalcanti, gerente de Sustentabilidade da HP Brasil. “Tanto em função da necessidade de contínua melhoria na eficiência e performance do parque tecnológico, como em virtude dos programas de sustentabilidade que envolvem ter o cuidado necessário com a reciclagem dos equipamentos das instituições.” Somente em um dos bancos clientes da HP houve troca do parque de informática e coleta de equipamentos de mais de 3.000 agências espalhadas pelo Brasil. A HP tem projetos em parceria com o setor bancário que incluem a geração de indicadores de TI verde. “Envolve calcular os savings [economia] de energia (por meio do programa de eficiência energética ecarbon footprint calculator [calculadora de pegada de carbono]) e redução de emissões, além de prover soluções de reciclagem para os equipamentos da HP ou de outras marcas”, explica.

Na Ponta

Medidas como envio de extrato online, abertura de contas e contratos assinados de forma digital também são adotadas pelo setor para incentivar clientes a usar cada vez menos papel. O Bradesco tem 4,6 milhões de clientes que abriram mão de extratos impressos e vê avanço de 41% no uso de canais digitais. “Com o projeto Abertura de Contas - Digitização, a conta corrente do cliente já nasce digital, sem a necessidade da impressão no momento da abertura”, diz Luiz Carlos Angelotti, diretor-executivo do Bradesco. O banco testa ainda o programa “Agência sem papel”, que estuda documentos possíveis de ser digitalizados, eliminados ou até automatizados nas agências. Em fase de teste também está a instalação de placas fotovoltaicas em agências para avaliar e aferir os resultados do uso de energia solar. Esses sistemas devem suprir, em média, 40% do consumo total de energia dessas agências.

Na Caixa, o SMS é meio usado para informar clientes sobre a movimentação do FGTS e economizar nos impressos. Funcionários do banco recebem, desde agosto, fatura de cartão pelo aplicativo, internet banking ou e-mail. Iniciativas como o Programa de Ecoeficiência do Banco do Brasil incentivam a redução de impactos ambientais nas atividades da instituição, além da criação de agências verde, com reuso de água e energia solar.

Com 502 salas de áudio e videoconferência dentro e fora do país, o número de bilhetes aéreos e gasto com táxi caiu drasticamente, segundo o BB, que tem o cuidado de calcular o benefício ambiental da medida: de janeiro a outubro, com a realização de 18.668 videoconferências, o banco evitou a emissão de 10.256 toneladas de CO² e economizou R$ 35 milhões. “A digitalização também contribui para diminuição do consumo de papel. Setenta por cento das transações bancárias foram em canais digitais”, diz Wagner Siqueira, gerente-executivo de responsabilidade socioambiental do BB.

Um dos focos prioritários no Santander é reduzir a geração de resíduos. “Com iniciativas de gestão interna como as impressões centralizadas e o ‘Clique único’ (aprovação digital de contratos), reduzimos em 23% a geração de resíduos de papel”, diz Karine Bueno, superintendente-executiva de Sustentabilidade do banco.O Itaú também oferece, por meio de um seguro residencial, serviços ambientais aos clientes. O segurado pode solicitar a coleta de resíduos eletrônicos, eletrodomésticos e móveis para o descarte correto, além de receber orientação para o consumo consciente de água, energia e dicas de reciclagem de lixo.

A coleta gratuita de equipamentos descartados de informática da marca HP já acontece há anos na companhia. Após o consumidor preencher um formulário no site, a empresa faz a retirada de forma gratuita, diretamente na casa ou empresa dele ou envia um voucher para ele entregar o material à HP pelos Correios.

De troca de iluminação a economia de papel e coleta seletiva, de mudança de processos a reaproveitamento de resíduos e compostagem de orgânicos, as ações do setor só tendem a aumentar, uma vez que os consumidores estão muito mais atentos ao que banco oferece e faz dentro e fora de suas instituições.

“Na qualidade de consumidor de equipamentos tecnológicos, em escala significativa, o setor bancário tem papel relevante na cadeia reversa de resíduos de equipamentos eletroeletrônicos”, diz Mara Luisa Alvim Motta, gerente nacional de Sustentabilidade e Responsabilidade Socioambiental da Caixa. “O comprometimento dos bancos influencia tanto na produção e oferta desses produtos, quanto na destinação desses resíduos de forma sustentável.”

Notícia retirada de: CIAB Febraban